
"A gente chegou um dia acreditar que tudo era pra sempre, sem saber que o 'pra sempre' sempre acaba." (Cássia Eller)
Ele não pôde me ensinar a escrever, andar de bicicleta, pescar. Quando nasci, ele já falava com um pouco de dificuldade e a bengala era sua melhor amiga ao andar. Ele vinha uma vez por mês em minha casa, assistia ao jogo do Santos e comia pipoca. Ele era um pouco teimoso, não aceitou fisioterapia. Íamos todos os domingos em sua casa. Ele cresceu no sítio. Lá, aprendeu a ser forte. Hoje imagino o quão difícil foi lutar contra as doenças que o tempo vinha trazendo. Criou dez filhos. Sobre seus antepassados, não tenho notícias. Ao fim da vida ele estava frágil, talvez o mundo atual tenha feito com que ele se cansasse depressa. Seus dedos eram tortos por conta do derrame, sua voz era tênue e frágil.
À medida que eu fui crescendo, meu ego foi fazendo com que ficássemos mais distantes. Nem todos meus domingos eram em sua casa. À medida que eu fui crescendo, também, sua vida foi ficando mais próxima do fim, seu cansaço aumentara.
A lembrança mais triste de minha vida foi ouvir seus ruídos – que, sem força, não conseguiam mais se mostrar em palavras – no corredor do hospital, implorando para que voltássemos e continuássemos consigo até o fim, não tão distante daquele momento. Pouco depois, ele resolveu partir. Eu não quis muito acreditar na verdade de perdê-lo, mas hoje creio num descanso no qual ele repousa, muito distante daqui, numa realidade espiritual onde as doenças e os males terrenos não podem alcançá-lo.
Ele não pôde me ensinar a fazer coisas que outros avós ensinam aos seus netos, mas sua lembrança, que reside no fundo da minha alma, pôde me ensinar muito mais coisas, sentimentos que o tempo não é capaz de apagar e que as palavras não são capazes de expressar.
G’ Stresser.