quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
sábado, 24 de dezembro de 2011
364 Natais
Desde que soube que Noel não existe, me entala na garganta a cara do Natal. E, mesmo sob o torpor de tanta maquiagem, sua feição é sempre pálida, sempre embrulhada em papel-seda.
Optamos pela vontade escandalosamente secreta de comer a coxa do peru, de escapar dos presentes-de-grego de uma tia avó, de beber até que o Eno nos ajude. Nós somos assim. Podia ser fácil – como quando inventamos essa data para celebrar a fraternidade gelatinosa; aquela que, sem cheiro nem gosto, enche a barriga de muitos – crer na fé das coisas miúdas, dos gestos pequenos, dos sentimentos mais limpos e tenros, dos outros trezentos e sessenta e quatro natais.
A gelatina da fraternidade desce vagarosa pela garganta. E isso é o que importa. Enquanto houver digestão, há fome. E que os Natais, maquiados ou desnudos, continuem a matar todas as fomes do mundo.