quarta-feira, 7 de setembro de 2011



(Ao sentimento mais sábio e profano.)

Que ele me arrebente, estupre-me, que seja eterno enquanto dure e dure pelos séculos de um tempo só. Que não avise quando chegar, que me faça acreditar em tudo e em todos, que me vista com suas vendas de cetim, que me cegue de todos os males e aproxime de mim o teu cálice. Que me escorra teu sangue branco nos momentos de paz e o vermelho ardente, quente e perigoso nas demais ocasiões. Que me traga o prazer, a sujeira, a santidade, que trague-me como se fosse o último pito, que leve-me como se fosse seu único filho.
Que me adote, me sustente, me enobreça e me cure de qualquer praga. Que seja meu deus, meu eu, meu mais feroz animal de estimação. Que me invada por inteiro e não deixe pegadas. Que me lave no teu puro suor, teu sublime salteado, que me entoe as cantigas de ninar e que eu durma em teu leito, teu peito, teu mais quente sufoco. Que sufoque-me, alente-me, amaine-me. Que venha com todas as forças, as crenças, que eu cresça contigo e seja teu mais bondoso criado.
Que nos unamos; e que, inconsequentemente, sejamos um só.

Que me inunde: o Amor.

domingo, 31 de julho de 2011

Chá das Cinco

Dezesseis e quarenta e nove. Pôs as flores no vaso de cristal que ganhara de sua avó em seu trigésimo quarto aniversário, estendeu sobre a mesa uma toalha rendada e posicionou o aparelho nos devidos lugares. Quatro cadeiras, quatro pires, quatro xícaras e quatro colherinhas.

Fitava as bolhinhas de ar que de pouco em pouco subiam no bule ao fogo, esperou que a água entrasse em ebulição, desligou a chama e continuou a esperar em silêncio.

Fazia sol, os pássaros cantavam e o vento trazia o som de um piano que seguramente estava longe dali. Mirou o relógio: um, dois, um, dois, um, dois, um, dois...

Calçou a luva de cozinha com delicadeza, como se fosse uma aliança. Abriu o forno, sentiu o calor na face e examinou os biscoitos. Estavam no ponto. Tirou-os da fôrma como quem cuida de bebês recém-nascidos, colocou-os no prato de porcelana e pôs sobre a mesa, ao lado do vaso e dos sachês.

Olhou para fora. Ninguém. Apoiou os cotovelos no parapeito da janela e ficou a esperar. O gato apareceu manhoso, guiado pelo aroma do quitute. Passou por suas pernas, esticou-se num ato de preguiça e retornou à sala.

Mirou novamente o relógio. Dezesseis e cinqüenta e oito. Colocou o bule sobre a mesa. Pôs um sachê em cada xícara. Sentou-se em postura de nobreza, aproximou-se do vaso, cerrou os olhos e tragou com suavidade e profundeza o perfume das flores.

Esperou alguns segundos, ainda tocando as pétalas. Sentiu-se acompanhado. Abriu os olhos. Com um largo sorriso, acolheu seus amigos imaginários e convidou-os para o chá.








Guto Stresser

terça-feira, 28 de junho de 2011

Tessitura



Talvez não tenha realizado todos os sonhos de mamãe. Não me formei em Medicina, não casei, não tive filhos (assumidos), não cumpro todos os Mandamentos da Igreja e tenho três gatos. Mamãe sempre odiou gatos. Talvez muitos dos meus planos nunca tenham saído do papel. Viagens, reformas, cursos a fazer, coisas a comprar, unhas não mais roídas. Outros, por sua vez, saíram pela culatra ou então assumiram outra forma para poder existir, o que já é uma vitória na guerra suada que tive com a vida. E falando em culatra, até hoje não consigo entender o que meus olhos vêem. E o que os olhos não vêem o coração sente sim. Ora me sinto como o cozinheiro, ora como o prato. Ou sou devorado, ou devoro. Ou crio ou sumo, não há saída – talvez não para quem tenha acabado com sonhos de mãe.

Nasci sem a placenta da boa-vontade. Procuro desde sempre os corações que pulsam, nutrem e amamentam o sangue - evito aqueles que se contentam em bombear. Deus, o chefe da cozinha citada anteriormente, me deu a graça do olfato aguçado. Capto com certa maestria onde falta e onde sobre tempero antes mesmo de provar do alimento.

No começo eu era rebelde. Nunca gostei de pique - esconde e os sonhos sempre fizeram questão de brincar comigo. O tempo se encarregou de trazer os hormônios e... fui seduzido. Fomos pra cama, eu e os sonhos. Por algumas vezes, me tornei papai. Em outras havia prevenção (sempre da minha parte). E em todas as gestações, os sonhos morriam no parto.

Outra coisa que me veio com o tempo, além dos hormônios, foi a mudança de ponto de vista. Nunca fui fiel à ortografia. Sempre pontuei locais inadequados e assumo minha descoordenação com honra. Chutei o balde, discursei quando o silêncio era preciso. Sempre tive desejo pelo que não existe e com certa audácia afirmo ser mais fluido que matéria.

Na cara da moeda, procurei respostas e outros trambolhos que me satisfizessem de uma vez por todas. Deitei em solo humano e quis dormir sem que nada tivesse me acordado. Não consegui. Pulei para a coroa: Juntei saudades do que nunca tive, fui o rei de castelos de areia, me deliciei em nuvens de algodão, enchi belos sacos de pequenas coisas que me deixavam feliz. Colecionei chaves, cartões de visita, miniaturas, rabiscos, fotografias. Criei asas. Passei tardes ao lado de amigos imaginários, risquei na parede do braço os minutos que faltavam para um novo começo. Esperei o circo chegar e fui com ele. Fui ao infinito e além!

Tive alguns casos com o perigo. Em todos fui traído. Passei a me coar: aquilo me apraz, aquilo me destrói. Construí uma amizade sincera com o Desconhecido. Nos amaríamos não fosse a carne espessa e humana que me reveste, mas ainda temos tempo para sanar o desejo. Tempo e paixão não nos faltarão,

Porque o conflito armado ainda está no início. Minha vida mal saiu das fraldas.








Guto Stresser