domingo, 31 de julho de 2011

Chá das Cinco

Dezesseis e quarenta e nove. Pôs as flores no vaso de cristal que ganhara de sua avó em seu trigésimo quarto aniversário, estendeu sobre a mesa uma toalha rendada e posicionou o aparelho nos devidos lugares. Quatro cadeiras, quatro pires, quatro xícaras e quatro colherinhas.

Fitava as bolhinhas de ar que de pouco em pouco subiam no bule ao fogo, esperou que a água entrasse em ebulição, desligou a chama e continuou a esperar em silêncio.

Fazia sol, os pássaros cantavam e o vento trazia o som de um piano que seguramente estava longe dali. Mirou o relógio: um, dois, um, dois, um, dois, um, dois...

Calçou a luva de cozinha com delicadeza, como se fosse uma aliança. Abriu o forno, sentiu o calor na face e examinou os biscoitos. Estavam no ponto. Tirou-os da fôrma como quem cuida de bebês recém-nascidos, colocou-os no prato de porcelana e pôs sobre a mesa, ao lado do vaso e dos sachês.

Olhou para fora. Ninguém. Apoiou os cotovelos no parapeito da janela e ficou a esperar. O gato apareceu manhoso, guiado pelo aroma do quitute. Passou por suas pernas, esticou-se num ato de preguiça e retornou à sala.

Mirou novamente o relógio. Dezesseis e cinqüenta e oito. Colocou o bule sobre a mesa. Pôs um sachê em cada xícara. Sentou-se em postura de nobreza, aproximou-se do vaso, cerrou os olhos e tragou com suavidade e profundeza o perfume das flores.

Esperou alguns segundos, ainda tocando as pétalas. Sentiu-se acompanhado. Abriu os olhos. Com um largo sorriso, acolheu seus amigos imaginários e convidou-os para o chá.








Guto Stresser

terça-feira, 28 de junho de 2011

Tessitura



Talvez não tenha realizado todos os sonhos de mamãe. Não me formei em Medicina, não casei, não tive filhos (assumidos), não cumpro todos os Mandamentos da Igreja e tenho três gatos. Mamãe sempre odiou gatos. Talvez muitos dos meus planos nunca tenham saído do papel. Viagens, reformas, cursos a fazer, coisas a comprar, unhas não mais roídas. Outros, por sua vez, saíram pela culatra ou então assumiram outra forma para poder existir, o que já é uma vitória na guerra suada que tive com a vida. E falando em culatra, até hoje não consigo entender o que meus olhos vêem. E o que os olhos não vêem o coração sente sim. Ora me sinto como o cozinheiro, ora como o prato. Ou sou devorado, ou devoro. Ou crio ou sumo, não há saída – talvez não para quem tenha acabado com sonhos de mãe.

Nasci sem a placenta da boa-vontade. Procuro desde sempre os corações que pulsam, nutrem e amamentam o sangue - evito aqueles que se contentam em bombear. Deus, o chefe da cozinha citada anteriormente, me deu a graça do olfato aguçado. Capto com certa maestria onde falta e onde sobre tempero antes mesmo de provar do alimento.

No começo eu era rebelde. Nunca gostei de pique - esconde e os sonhos sempre fizeram questão de brincar comigo. O tempo se encarregou de trazer os hormônios e... fui seduzido. Fomos pra cama, eu e os sonhos. Por algumas vezes, me tornei papai. Em outras havia prevenção (sempre da minha parte). E em todas as gestações, os sonhos morriam no parto.

Outra coisa que me veio com o tempo, além dos hormônios, foi a mudança de ponto de vista. Nunca fui fiel à ortografia. Sempre pontuei locais inadequados e assumo minha descoordenação com honra. Chutei o balde, discursei quando o silêncio era preciso. Sempre tive desejo pelo que não existe e com certa audácia afirmo ser mais fluido que matéria.

Na cara da moeda, procurei respostas e outros trambolhos que me satisfizessem de uma vez por todas. Deitei em solo humano e quis dormir sem que nada tivesse me acordado. Não consegui. Pulei para a coroa: Juntei saudades do que nunca tive, fui o rei de castelos de areia, me deliciei em nuvens de algodão, enchi belos sacos de pequenas coisas que me deixavam feliz. Colecionei chaves, cartões de visita, miniaturas, rabiscos, fotografias. Criei asas. Passei tardes ao lado de amigos imaginários, risquei na parede do braço os minutos que faltavam para um novo começo. Esperei o circo chegar e fui com ele. Fui ao infinito e além!

Tive alguns casos com o perigo. Em todos fui traído. Passei a me coar: aquilo me apraz, aquilo me destrói. Construí uma amizade sincera com o Desconhecido. Nos amaríamos não fosse a carne espessa e humana que me reveste, mas ainda temos tempo para sanar o desejo. Tempo e paixão não nos faltarão,

Porque o conflito armado ainda está no início. Minha vida mal saiu das fraldas.








Guto Stresser

domingo, 22 de maio de 2011

Rua Faminta

Com o tempo, as ruas foram sendo rebatizadas com diversos epítetos – a Francisco Polisuck, por exemplo, virou Chico Puta, em homenagem às mademoiselles que por tantas noites ali eram leiloadas a baixo custo pelos senhores da alta casta metropolitana.

Com o tempo também conheci a respeito dos rituais que cada um tinha durante o engarrafamento: A senhora que de mim recebeu delicada alcunha de A Caipora (por conta das ferozes e vermelhas mexas) ouvia a estação 98.6 AM e usava brincos Lady Di. Assustei-me quando, certa vez, ao olhar para os carros ao lado, vi Caipora com os cabelos nigérrimos. Havia também um cardiologista do Santíssima Mãe que aproveitava o tempo lendo “1001 Maneiras de Seduzir sua Mulher”. Quando se empolgava, alimentava os olhos dos observadores – como a mim – erguendo inconscientemente o livro e forçando a vista num ato típico de macho dominador. Infartou em maio de 92 enquanto brincava num dos bordéis da Chico Puta. Outra figura inesquecível é a de Paulo da Gaita. Banguela de pouco estudo, o senhor saía a desfilar por entre as ruas com sua gaita enferrujada encantando até os mais rudes motores que diariamente hibernavam naquele local.

E mesmo com a tarefa de cuidar da vida de todos que por algumas horas faziam-se vizinhos, minha cabeça era incumbida de dividir-se em doses homeopáticas. Meu maior e mais silencioso assassino foi, por longos anos, o tempo gasto nos congestionamentos. O asfalto fez careca não somente o pneu.

Quando abri os olhos, o tempo tinha passado e a cidade traiçoeira havia comido grande parte de mim. A Lua-de-mel cristalizou-se, a França dos amores tornara-se apenas viagens a trabalho, a sanfona de papai virou cobiça de quinquilheiros de plantão. Nas fotos da formatura do filho, nas canjas-com-pão em noites frias, nas discussões, nas aulas de piano para sempre inacabadas, no cerne da vida, em nada estive presente.

Sem muita surpresa, retorno ao ponto de onde parti. Observo um verde sorriso do sinaleiro que no fundo assistiu de camarote ao espetáculo cotidiano. Lembro-me como se fosse hoje de quando nas veias negras da cidade, fui sangue.


Guto Stresser.



Texto produzido para a Oficina de Contos da Biblioteca Pública do Paraná, ministrada por Miguel Sanches Neto.